À um ano atrás, era domingo também.
Estava sol e eu andava nas lides domésticas. Limpar, sacudir tapetes, aspirar a casa...
Estava grávida de 24 semanas. Convidaram me para almoçar fora, mas não me apetecia, tinha "muito que fazer e durante a semana não tenho tempo".
Era um dia normal. Aparentemente...
Sentia-me bem! Tudo estava a correr bem.
A meio da tarde uma pontada na barriga. Fiquei sem ar e não consegui dar mais um passo. Achei estranho.
Deve ser cansaço, pensei. Vou-me deitar um bocadinho para descansar.
Adormeci.
Passado duas horas levantei-me. A dor continuava. Nem deitada me aliviava.
Comecei a achar estranho e fui pesquisar para a internet. Claro que quando se vai para o Google tudo o que aparece não é bom e assusta-nos mas tentei manter a serenidade.
Cada vez que me levantava tinha de segurar a barriga que ficava muito dura e dar passos pequeninos.
Uma vez uma amiga tinha-me dito "Sempre que tiveres uma dor que não aches normal vai à Maternidade!". Aquelas palavras começavam a ecoar-me na cabeça. O meu coração ficava acelerado e eu só pensava Vai tudo correr bem. Mas o meu instinto dizia que este era o momento em que algo não estava bem!
Quando o meu marido chegou a casa ao final da tarde, encontrou-me deitada no sofá e perguntou-me se já estava pronta (tínhamos uma festa de aniversário nesse dia). Expliquei-lhe que tinha estado a tarde toda com dores e não estava em condições (nem com disposição) de ir para lado nenhum. Disse-lhe para ele ir. Ele foi.
Vários pensamentos assaltavam-me a mente.
Isto vai passar.
Se amanhã não estiver melhor vou ao médico.
Mas porque é que esta dor não passa?
Será que fiz algum esforço?
Se calhar devia ir à Maternidade... Mas eles vão dizer que sou doida e mandam-me para casa!
Decidi ligar para a Saúde24.
Depois de um longo questionário aconselharam-me a ir à Maternidade. A voz tinha um tom preocupado e isso assustou-me.
Quando o meu marido voltou da festa disse-lhe Tens que me levar à Maternidade!
Ficou branco o rapaz, nem sabia o que dizer.
No atendimento a médica estava descontraída e tranquila. Fui fazer uma ecografia para ver o que se passava. A expressão dela mudou quando olhou para o ecrã.
Qual é a possibilidade de ficar cá hoje?, perguntou-me.
Não me diga uma coisa dessas! - fiquei sem chão nesse momento e as lágrimas escorriam-me pelo rosto, mesmo sem querer.
Repouso Absoluto!
Eu moro aqui perto, fico em casa.
Fica à sua responsabilidade mas não a aconselho.
Não havia muito a discutir. Tinha de ficar mesmo internada. Nem para o quarto pude ir a andar, fui de cadeira de rodas.
O risco de parto prematuro às 24 semanas era grande e a taxa de sobrevivência é muito reduzida.
Deram-me a injeção da maturação pulmonar e medicação para evitar as contrações.
Após o susto, veio a aceitação.
A ansiedade mesmo assim era grande de cada vez que a enfermeira vinha ouvir o coração do bebé. Sempre o receio de que alguma coisa não estivesse bem.
Sentia-me impotente e tentava encontrar uma justificação para o que me estava a acontecer. Mas, no fundo, não havia.
O melhor, foi fazer nova ecografia e apaixonar-me pelos 620 gramas de Amor que cresciam dentro de mim.
A primeira noite não foi fácil. Habituarmo-nos aos barulhos às rotinas de um espaço que não é o nosso.
Os dias começavam cedo e o melhor era apreciar o sol a espreitar por entre as serras. Belas paisagens que me acordavam e me davam novo alento para esses dias.
No quarto, já estava outra rapariga. Bem mais nova do que eu, grávida também da primeira filha. Tinha vindo da Covilhã com suspeita de ruptura do saco do líquido amniótico.
Felizmente era muito simpática e criámos uma boa amizade. Ali "presas" as duas não tínhamos muitas opções, mas as coisas podiam não ter corrido bem. Também é preciso ter sorte! ;)
E depois recebia estes miminhos para alimentar a barriga e o espírito!
MA-RA-VI-LHAAAAA!!!
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| Uma prendinha que a minha nova amiga me deu e um dos primeiros babygrows que a minha Princesa vestiu |
À medida que o tempo ia passando os prognósticos iam variando mas todos me diziam que quanto mais tempo eu lá ficasse melhor era para mim - sinal de que estava tudo a correr bem!
Já estava mentalizada que ia lá ficar no Natal, quando tive alta.
Foram só 15 dias e a melhor prenda de anos que pude receber!
Fui para casa, ainda em repouso nos primeiros tempos mas depois comecei a retomar a minha rotina.
Felizmente correu tudo bem, apesar do susto inicial.